ATRAVÉS DE APICUCOS - Por Leonardo Antonio Dantas Silva

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Neste Arruando pelo Recife, iremos conhecer hoje o subúrbio de Apipucos, começando pela casa nº 320 da Rua Dois Irmãos, atualmente ocupada pela Fundação Gilberto Freyre, com sua sede denominada de Casa-Museu Madalena e Gilberto Freyre, um solar do século XIX onde residiu por muitos anos o autor de Casa-grande & Senzala. 


O conjunto, hoje Monumento Nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, encontra-se encravado nas terras do antigo Engenho Apipucos que, à época da invasão holandesa, pertencia ao colono Gaspar de Mendonça. Em seu interior encontraremos móveis do melhor estilo pernambucano, objetos de arte, condecorações, pratarias, painéis de azulejos portugueses, uma relíquia de São Francisco Xavier (trazida de Goa pelo seu antigo proprietário) e, especialmente, uma preciosa biblioteca totalmente informatizada de uso do escritor Gilberto de Mello Freyre (1900 – 1987).

No mesmo conjunto, encontra-se a Vila Anunciada, antiga residência do industrial Delmiro Gouveia, hoje ocupada por instalações da Fundação Joaquim Nabuco, criada por meio de projeto do então deputado federal Gilberto Freyre em 1949. No local funciona o Instituto de Documentação e a Biblioteca Central Blanche Knopf, cujo acervo é de fundamental importância para o conhecimento da história e da sociedade do norte-nordeste do Brasil.

Mais adiante, já na Praça de Apipucos, conserva-se um dos mais belos conjuntos arquitetônicos que, com seu casario colorido, complementado pela Igreja de Nossa Senhora das Dores e pelo açude que forma um grande lago, bem retratam a paisagem característica das povoações localizadas na zona rural do Recife do século XIX. 

O Engenho Apipucos que deu o nome ao bairro é originário das terras do Engenho São Pantaleão do Monteiro, como consta da escritura de compra em favor de Leonardo Pereira, datada de Olinda, 5 de dezembro de 1577. A propriedade foi vendida a D. Jerônima de Almeida que a transferiu, por compra, para Gaspar de Mendonça, que era seu proprietário quando da guerra com a Holanda (1630-1654).

A capela do Engenho Apipucos já existia em 1645, quando por duas vezes foram a povoação e seu templo saqueados por soldados da milícia da Companhia das Índias Ocidentais. Na ocasião, foram as imagens do templo destruídas e suas alfaias queimadas, obrigando o velho e enfermo Gaspar de Mendonça a se esconder, com seus filhos, em matas das redondezas. Por essa época, tinha a capela por protetora Nossa Senhora da Madre de Deus e, por capelão, o padre João Dias, que, em 7 de outubro de 1645, assinou, juntamente com outros gentis homens, o Termo de Aclamação da Liberdade Divina, dando força à Insurreição Pernambucana.

A capela passou a dedicar sua devoção a Nossa Senhora das Dores em data que não se pode precisar. Pereira da Costa afirma que, compulsando um documento de 1783, dispunha ela de custosas alfaias, um crucifixo de marfim com três palmos de altura, todo aparelhado em prata com coroas e adornos das imagens no mesmo material. Uma reforma, ocorrida em 1887, porém, destruiu seus altares em talha dourada, “em que se via a imagem da padroeira e fizeram tudo de alvenaria, acaso sob o plano de algum boçal mestre-pedreiro”. 

Do antigo engenho resta, em nossos dias, a Igreja de Nossa Senhora das Dores e, segundo a tradição, uma parte da senzala dos escravos “que corre paralela ao lado da mesma capela”.
Apipucos ou Apopucos, como aparece em antigos documentos, tem sua origem no tupi, corrutela de apé-puc, e significa “caminho que se divide ou se parte, encruzilhada, encontro de caminhos”. Pereira da Costa, com base em mapa do século XVII, é da opinião de que seria “a existência de dois caminhos que se conjugavam no local onde se assenta a povoação”.

Apipucos também foi, no início do século XIX, uma aprazível e concorrida estância balneária, chegando a possuir até um hotel e linha de diligências que fazia ligação com o centro do Recife. Foi, por muitos anos, o paraíso dos estrangeiros que para aqui vinham em busca dos ares de seu clima.

Despertou a atenção de inúmeros viajantes, dentre os quais o negociante francês Louis-François de Tollenare (1780-1853) que, vivendo no Recife em 1817, foi testemunha presencial do movimento republicano ocorrido naquele ano e nos deixou importantes depoimentos sobre hábitos, festas (o entrudo, inclusive), usos, costumes e vida familiar da sociedade de então. Numa de suas descrições, escritas num domingo, ele pinta com cores vivas o costume dos “banhos medicinais” no Rio Capibaribe, onde os “passadores de festas” reuniam-se em localidades como Apipucos para usufruir das delícias daqueles banhos coletivos: 

(...) é nas margens do Capibaribe que cumpre ver famílias inteiras mergulhando no rio e nele passando parte do dia, abrigadas do sol sob pequenos telheiros de folhas de palmeira; cada casa tem o seu, perto do qual há um pequeno biombo de folhagens para se vestir e despir.

As senhoras da classe mais elevada banham-se nuas, assim como as mulheres de cor e os homens. À aproximação de alguma canoa mergulham até o queixo, por decência, mas o véu é demasiado transparente! Vi nestes banhos a mãe amamentando o filho, a avó mergulhando ao lado dos netos, e as moças da casa, traquinando no meio dos seus negros, lançarem-se com presteza e atravessarem o rio a nado.

A posição do corpo requerida por este exercício não deixa ver a quem passa nem o seio nem parte alguma da frente do corpo, de sorte que elas consideram o pudor resguardado; mas, há outras formas não menos sedutoras que o olhar pode contemplar à vontade.

Confesso que fiquei tão surpreendido quanto encantado ao encontrar um dia, nesse estado de náiades sem véu, as senhoritas M..., filhas de um dos primeiros negociantes da praça.

Aliás, se os passeantes, deslumbrados por tantos atrativos, testemunham curiosidade impertinente, num fechar de olhos as lindas anfitrites dão um mergulho e vão reaparecer na superfície d’água vinte passos mais adiante.

Graças à sua população flutuante, particularmente no período das festas do final do ano, Apipucos foi uma das primeiras povoações do Recife a dispor de um sistema de transporte coletivo. Tal novidade só apareceu em 1847, com a ligação por diligência entre o Recife e Olinda, mas em 1852 já atingia a povoação de Apipucos. O uso da diligência, como se depreende dos desenhos de Luís Schlappriz litografados por Francisco Henrique Carls (1863), foi uma rotina para a população do Recife até 1876. 

A diligência era chamada de ônibus, originária da expressão latina: para todos. A passagem fora fixada ao preço de 1 mil réis e seus serviços eram explorados por Cláudio Dubeux, comerciante de pólvora também residente em Apipucos, localidade onde faleceu em 13 de janeiro de 1881.